As dores me acompanham em toda a minha vida adulta. Primeiro, eram atribuídas ao estilo de vida de estudante de Odontologia, estagiária e festeira, que me rendia uma dorzinha no pulso, e pescoço sempre tenso. Depois, as dores advinham de uma vida profissional intensa, três ou mais trabalhos, longas horas de trânsito e ainda viagens, sempre que possível. Nessa época a artrose nas mãos já começava a aparecer e, junto com ela, as visitas a ortopedistas e a reumatologistas. Alguns exames, resultados inconclusivos. Mas, de qualquer forma, pra artrose, não tem remédio.
Na gravidez senti a lombar, dores nas pernas, pescoço sempre tenso….coisa de grávida?
Com um bebê então? Incansáveis horas de colo, braços e pescoço sempre sempre doloridos. Volta e meia alguém me dizia que a tia fez um tratamento pra artrose, que tinha um remédio ótimo… e lá voltava eu pro reumato, pra fazer uns exames de imagem e acompanhar a degeneração das cartilagens dos dedos, ainda sem remédio.
A filha foi crescendo e a rotina ficou mais pesada. Além de muito trabalho fora de casa, ainda tem meu trabalho (preferido) de ser mãe.
A idade vai avançando (atenção aqui, estou falando apenas de 42 anos) e o corpo cansa mais. Fiz algumas escolhas para tentar melhorar a qualidade de vida. Optei por apenas um trabalho, próximo a minha casa, contato com a natureza… menos estresse e menos sobrecarga. Mas e a dor? Não melhorou?
Volta na reumato pra ver essa artrose e saber que medicamentos, são só aqueles que não tem comprovação científica. Depois de mais exames, vimos que o fator reumatoide deu alteração (pela primeira vez em uns 15 anos). Exames mais específicos para doenças reumáticas seguem inclusivos.
Depois de algumas consultas de acompanhamento, e mais pedidos de exames, a médica sugere um medicamento para dor de origem neuropática. Tomar o remédio ajudaria como critério de exclusão para o possível diagnóstico. Depois de muita conversa com a médica, resolvi tomar o remédio. Na minha cabeça, seria uma perda de tempo, já que a artrose não é neuropática (pra essa, não tem remédio).
Comecei a tomar o remedinho e em dois dias eu fiz uma descoberta chocante.
Eu vivi com dor pelos últimos 15 anos (no mínimo) da minha vida, e achava que era normal.
O alívio é impressionante. Um dos maiores choques de realidade é que eu sempre acordo e levanto imediatamente da cama e eu achava que era porque eu era uma pessoa muito ativa. Mas descobri que ficar deitada na cama dói.
Que ótimo, você pode pensar! Achou a solução. Claro que sou feliz e sou grata por isso, mas está sendo difícil aceitar que vivi uma vida de dor, sem saber. Difícil também aceitar que para viver sem essa dor, preciso tomar um remédio (com vários efeitos colaterais) todos os dias. Ou experimentar vários remédios e várias doses. E difícil também saber, que o remédio serve só pra dor neuropática e não adianta nada pra artrose (pra essa, continua não tendo remédio).
Escrevo esse relato por mim, como forma de protesto pelos anos de dor. E pra deixar registrado aqui que nem sempre o dono da dor sabe quanto dói.
Link pra música que inspirou o título da postagem: